segunda-feira, 26 de maio de 2008

A descoberta.

O menino descobrira o mundo cavando pequenas trincheiras no quintal. Costumava cavar os buracos e se deitar para sentir a umidade da terra fresca recém remexida. Quando calhava de não chover por um longo tempo, franzino, o menino se contentava em fazer buracos menores. Enfiava seus pés nos buracos e cobria-os com terra: fingia de planta, árvore; seus pés, suas raízes.
O descontentamento de seus familiares se refletia nas imprecações de sua mãe e de sua avó.
- “Onde já se viu um menino ficar se enterrando e ainda achar graça nisso”; dizia sua mãe.
-“A terra é suja e você vai acabar ficando doente de tanto que se mete com essa sujeira toda”; ralhava sua avó.
Mas o frescor e o prazer que sentia no contato de seu corpo com a terra deixavam nele uma impressão de que havia naquela umidade um princípio de vida, um princípio de tudo. Mantinha com os outros uma reserva que não dispensava aos seres imaginados e criados por ele, todos cor de terra, todos com os odores da terra. Fazia seus bonecos de barro e soprava neles a alegria de se sentir íntimo deles. Afinal ele também cheirava à terra, suas roupas tinham as cores ocres da terra do quintal.
Nunca passara pela sua cabeça a possibilidade da terra ser um símbolo de saudade e perda. Para ele a terra era o símbolo da felicidade, por isso ou por outro motivo qualquer, não entendeu por que todos estavam tristes e chorando. Aquele lugar úmido, cheirando a terra molhada e ainda por cima repleta de flores e outras coisas com os odores de terra não podiam despertar nele outro sentimento que não o da alegria. Tratou de se sentar bem perto do buraco cavado, dessa vez por outras pessoas, e começou a cantarolar e a remexer com as mãos os montes de terra acumulados que estavam bem ao seu lado. Todos permaneceram em um profundo silêncio observando o menino. Aquele era seu momento de maior desprendimento e amor. Quando tudo terminou todos se despediram e voltaram para suas casas e para suas vidas. Nem notaram a pequena lágrima que corria da face suja de terra do menino. Naquele momento havia descoberto um novo sentido para os odores de terra e para as cores ocres de sua infância, agora a terra também guardava seu passado.

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