segunda-feira, 26 de maio de 2008

o inconstante.

O primeiro estampido soou abafado demais para surtir algum efeito. Apenas abri os olhos e sonolento continuei deitado sem me preocupar com o que poderia ter sido a causa daquele som. O segundo soou um pouco mais forte parecendo estourar em meus ouvidos. Estanquei. Permaneci com a cabeça presa ao travesseiro. Procurei não me misturar com os sons da noite, pois não havia muito a se saber. Não fora nada, apenas alguns estampidos surdos numa noite quente. Na manhã seguinte soube que os estampidos que não foram capazes de me tirar da cama, foram suficientes para mutilar as duas pernas de um crioulo que vivia nos arredores. Era um dos muitos moradores de rua que vieram morar próximo ao nosso bairro pequeno burguês, um dormitório da pequena e medíocre burguesia carioca. Mas como sempre se dá, não percebíamos muito bem o que estava acontecendo. Apenas havia notado que não podia mais sair às noites sem ser interpelado por algum transeunte sempre em busca de alguns trocados. Fora isso não havia nada de extraordinário acontecendo.

Os outros crioulos ficaram ressabiados. Passaram a andar em bandos na tentativa de preservar a segurança que pensavam ter. Afinal não tinham muitos motivos para temer os moradores do bairro. Fora alguns palavrões e desentendimentos corriqueiros, nada de drástico acontecia. Logo esqueceriam de tudo e voltariam às suas vidas ou ao que costumavam chamar de vida.

O calor perdurava e a noite parecia ganhar um peso insuportável. Não me lembro de ter ouvido barulho algum a noite, mas ao acordar soube que outro crioulo havia sido mutilado, desta vez foram os braços que haviam sido arrancados pelo impacto dos projéteis. Morreu antes de poder apontar o seu algoz. Gostei de pensar assim, apontar seu algoz, porra, o cara ficou sem os dois braços, piada. O pior é que não havia ninguém por perto para ouvi-la. Nunca fui muito bom com as piadas.


A campainha tocou e, como ainda estava sonolento, não sei se tocou uma, duas, três ou várias vezes. Do lado de fora deveria estar um homem armado com uma pistola e quando abrisse a porta ele apontaria aquela maravilha na minha cara. Finalmente iria ver a cena estúpida se passando como se esperasse um maldito salvador.

Estanquei olhando aquela figura de cócoras, arriado em minha porta sob um sol escaldante. Deus havia mandado um dos seus para me salvar. A merda era que não estava muito certo de estar de fato acordado. Talvez por isso ou sei lá porque apenas chutei o infeliz até que ele se enfurecesse e me amaldiçoasse. Lançou sonoras maldições. Algo como “seus dias serão difíceis de agora em diante, porque a fúria de nosso senhor irá se abater sobre vós”. Algo desse tipo. Não podia ouvi-lo direito, pois ainda achava que estava dormindo. E mesmo se o ouvisse o que isto poderia me dizer. Que me lembre nunca tive um maldito dia de paz nesta vida. “Fúria do senhor”. Que porcaria mais antiquada. Deveria tê-lo chutado mais.

Depois de arrumar a papelada do escritório lancei alguns dardos na parede em frente a minha sala. Era o costume. Depois de um ato idiota, faça algo de produtivo. Desconfiei daqueles dardos desde a primeira vez que os peguei em minhas mãos. Sempre errava a porra do alvo. Deviam estar viciados. Mas acho que só os dados é que ficam viciados. Deve ser por isso que deus não joga dado. Um drink antes do almoço cairia bem, pensei. Uma foda também. A diferença? Um drink sempre pede outro. A nova secretária não ia muito com a minha cara. Talvez pudesse convidá-la para tomar comigo depois do expediente. Preferi não arriscar, não dessa vez.

Lembrei da piada do dia anterior e comecei a achar que ela talvez não fosse tão ruim assim que não devesse contá-la a alguém.

Assim que amanheceu resolvi me deitar. Espreitei pela janela a noite toda na expectativa de ver alguém arrancar dessa vez a cabeça de algum vadio. Mas nada aconteceu. Nem estampidos nem nada. Apenas alguns moleques currando uma menininha loirinha que parecia estar gostando muito de ser currada por eles. Eram em quatro. Dois tomavam conta enquanto os outros dois metiam na menininha loirinha. Depois revezavam. Parecia uma reunião em família. Ou uma comunhão. Quando terminaram se cumprimentaram e saíram civilizadamente. Cada um foi em uma direção diferente. Mas a menininha loirinha permaneceu pela esquina por mais um tempo até que um carro encostou e a levou dali.

Aquele cara de novo. Agora com uma picareta na mão. Estou todo amarrado. Uma mordaça me impede de gritar. Ele ri enquanto bate a picareta próximo a minha cabeça. Parece estar tentando me dizer alguma coisa, mas as suas risadas não me deixam ouvir o que ele diz. Merda. Por que não consigo alcançar os meus bagos, eles estão gelados demais. Acho que vou tossir. Mais que merda, eu já tenho os meus próprios problemas e não preciso de mais outros. Agora eram os meus bagos que pareciam tentar alguma manobra desesperada. A picareta no chão. Pa..pa...pa...pa...pa..pa...aquele filho da puta sabia mesmo como me meter medo. Saí correndo assim que consegui alcançar os meus bagos. Corri pelas ruas do bairro de baixo. Esquinas e mais esquinas pareciam se amontoar sobre os meus pés. Pa...pa...pa...pa...pa...pa...

Alguém batia à minha porta. Corri os pés pela lateral da cama e percebi os meus chinelos. Calcei e fui me arrastando até a porta. Do outro lado já podia ver a menininha loirinha oferecendo-me doces que ela mesma havia feito na noite passada. Uma escocesinha com um saiote ínfimo tocando sua gaita de foles. Seu odor era de maçã e canela que pareciam ter sido colhidas ainda durante a noite. Meti a chave no buraco, girei o ferrolho e morri. Era assim a minha morte, pensei.

- O Sr. não apareceu hoje na firma, posso saber por quê ? - era a nova secretária lá da firma.

- Bem, ensaiei uma boa desculpa, estou com dor de barriga.- eu sou um fiasco, ela deve ter achado que não passo de um idiota. E com razão.

- Que tal se me deixasse entrar um pouco.

Eu continuo dormindo, pensei.

....pa...pa...pa...pa...pa...pa...pa....

Ainda batiam na porta da frente. Escancarei a porta. De cueca e de chinelos, parado em frente à porta escancarada, entendi o porquê dos bagos gelados: minha cueca estava rasgada. Entendi. O ventilador havia parado de girar bem na direção dos meus bagos.

Tinha um safado me vendendo produtos de beleza. E eu nu diante de um idiota que não me olhava nos olhos tentando me vender alguma merda de produto de beleza. Será que esse estúpido não sabe que a beleza está morta. Será que não desconfia que a beleza envelheceu e se acinzentou de tédio? Eu estava poético.

Dessa vez nada de pontapés. Entrei enquanto ele continuava falando das vantagens da morte... e comecei a atirar algumas garrafas vazias de vinho e cerveja na direção da sua cabeça. Estanquei. Era o magricela de óculos vendendo a palavra de seu salvador... filho da puta...era e não eram os mesmos. A cicatriz que começou a sangrar naquela noite estúpida e quente não iria me deixar ir a lugar algum até o dia em que finalmente me esvaziasse por completo.

No escritório o que mais me incomodava eram as pernas da nova secretária. Eram brancas. Compridas. Sempre a mostra. E de perto cheiravam a canela e maçã. Escocesinha de saiote curtíssimo. Porra...estava mesmo enlouquecendo.

..pa...pa...pa...

Os estampidos vieram da sala ao lado a minha. Acendi um cigarro na ponta do outro quase acabado e me levantei. Dessa vez estava de fato acordado. Não que tivesse certeza disso, mas não me lembro de alguma vez ter tido um sonho ou ouvido falar de alguém que tivesse sonhado com fumaça de cigarro.

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