terça-feira, 27 de maio de 2008

Incerteza

A boca de Bento havia inchado de um modo descomunal nos últimos três dias. Era seu quarto dente podre em menos de um ano. Lembrou das palavras de todos os dentistas que conhecera ao longo da vida. Arreganhou a boca diante do espelho do banheiro e viu o fino rio de pus que escorria, minava de suas gengivas, agora um misto de carne viva e sangue apodrecido contido apenas pelo seu sorriso anêmico. Correu a casa em busca de um analgésico. Encontrou a garrafa de conhaque pela metade. Deixou pender a cabeça para trás e entornou o conhaque na boca. Há três dias só bebia. Lembrou das papinhas que ganhava quando criança, num momento em que a felicidade era ser banguela de nascença. Uma vez dentado, uma vez infeliz, pensou. A questão não era bem a dor que sentia. Era mais o constrangimento que o incomodava. A memória latejava mais que o dente estragado em sua boca. Desde a última vez que arrancara uma parte de si não conseguia mais arrancar da cabeça algumas memórias que não se lembrava mais se as tivera de fato vivido. O incomodo da incerteza é tanto pior que o de um dente minando pus em uma boca, pensou.

Uma em especial o incomodava mais. Estava sentado no colo de um homem idoso, talvez um seu avô, e este lhe dava cachaça em uma colher de sopa. Depois metia uma das mãos cheias de dedos retorcidos em sua boca e arrancava um dente que aparentemente não havia lhe causado dor alguma. A incerteza da dor. Um dente saudável. Tudo isso junto o deixava tonto, nauseado. Percebeu pela primeira vez a pequena célula de ruína que trazia consigo. Cada rua, cada casa, cada avenida; cada um dos transeuntes e moradores de suas lembranças era uma pequena célula de decadência e ruína.

A decadência habita a memória. A ruína habita o corpo. Mas é na lembrança que habita o mal-estar causado pela fusão das duas quimeras. O sabor da carne estragada aguçava seu paladar, mas inutilizava a sua vontade. A náusea causada pela lembrança de alguma lembrança passada dava lugar a um sentimento que parecia brotar da sua vontade mas que logo se mostrava tão incerto e impreciso que mais fácil seria aceitar que nada acontecia consigo. A não ser a velha dor da incerteza.
À tarde consentiu com a paisagem e resolveu iniciar o tratamento anódino em algum bar da cidade. Sentado em frente ao velho balcão de madeira, rodeado por algumas tulipas vazias, percebeu que sua língua estava dormente e que não conseguia mais sentir a própria boca. Nem os dentes sadios nem o dente podre. O interior de sua boca agora era uma zona morta. Ensaiou alguma reação, mas desistiu de chamar para si a atenção dos outros bêbados e pervertidos do local. Encheu a boca com um bocado de cerveja. Engoliu. Entendeu que não fora a sua boca que morrera, mas a lembrança que o perseguia há três dias é que havia sumido.

Lembrou então do dente saudável que lhe fora arrancado por engano quando criança. Chamou um dos moleques que estavam engraxando os sapatos dos clientes do bar e perguntou se ele não gostaria de ganhar algum dinheiro naquela tarde. Pediu uma garrafa de aguardente e dois copos ao balconista. Serviu uma rodada, serviu outra e mais outra e mais outra...Pediu para que o moleque abrisse bem a boca e pôs-se a olhar bem de perto os seus dentes. Todos estavam estragados e cobertos de uma camada espessa de uma massa amarela-esverdiada que fedia a dor. Os olhos radiantes do moleque destituídos de qualquer memória ou lembrança não eram capazes de transmitir nenhuma imprecisão. Ele havia sido envenenado pelo esquecimento. Havia engolido demais esta cidade para perceber. Toda poeira dos asfaltos quentes, toda indiferença e nulidade ofertada pelas ruas, vielas, casas e transeuntes da sua memória o haviam destituído de si.

Ao perceber que junto com a garrafa de aguardente havia esvaziado também sua cota de humanidade, agarrou o pescoço do moleque que nesta altura havia revelado sua idade e a culpa pelo seu dente podre e pela dor de todas as suas incertezas e acertou-o em cheio na boca. Um misto de sangue e dentes amarelo-esverdeados começou a ser regurgitado, enchendo a mesa do bar de cacos de tulipas e pedaços de vidros que pareciam brotar da boca inchada do moleque. Passou a língua mais uma vez pela boca e desta vez não encontrou mais o dente podre que o atormentava há três dias. Catou um dos dentes que estavam sobre a mesa, saiu do bar e atirou-o num dos vários bueiros entupidos da cidade. Podia seguir em paz, pelo menos até um outro dente começar a apodrecer em sua boca. Havia devolvido à cidade sua parte no jogo das incertezas.

1 comentários:

daniele disse...

Essa história de dentes, desdentados, parece familiar?! Mais um motivo para ser muito bom...