Presente ausente
Por
Fabiano de Castro.
2008.
1
Ou há ininterrupto presente
Ou nenhum presente há.
Ou quiçá presente ausente
No presente que não há.
Ou quem sabe não há presente
Mas presentificar
Ou ainda sem ser presente
Um singelo adiar.
2
Dia virá
Sem ser quando,
Alegoricamente.
Virá,
Presente ausente:
Presentificadamente.
Virá, sem ter sido.
No inesperado:
Acintosamente.
Virá,
Como escrúpulo:
Crepuscularmente.
Virá,
Sem horizonte:
Vertiginosamente.
Virá,
Como rastro:
Silenciosamente.
3
Se penso, adio para além
Toda possibilidade de pensar.
Se sinto, entrego
Ao que em mim sente
Um sentido que não há.
Mas se digo a quem me espreita:
“Sinta!”
Que sinta para lá ou para cá:
Um remorso, uma culpa;
Uma desculpa
para se pensar.
4
“...Quelle parole a surgi pres de moi,
Quel cri se fait sur une bouche absente?...”
Yves Bonnefoy.
Entre o nome e o instante
Habita um querer.
Um silêncio abissal
De um absoluto
Prazer.
Quem saberá o que virá
E quem
Não quereria saber,
Mas abdicar
O instante é não
Se conter.
Saber o que virá
É saber
Na ignorância,
Não saber como
Será, é saber
Sem importância?
5
A vida pensa em mim um claro equilíbrio
De manhã raiada em leves toques de alecrim
Pesando sobre os lilases
Cercada de azuis dourados marfim
Uma explosiva beleza de haver sol
De haver luz
De haver fim.
A vida pesa em mim como um raro dia ansiado
Entre avencas papoulas
Turmalinas cristais jasmins
Feito palavra pronta contra
Desejada como úmida manhã anunciada
Pelo toque dos clarins.
A vida escapa em mim:
Feito luz entre as portas abertas
Brechas janelas fendas arestas
Esquinas ruas certas e desertas
Escapa como quem apenas erra
Repousando na leve manhã que se degreda
Por trás dos loucos verdes campos jardins.
Ocorre apenas à rubra tarde que impera
O saber-se eterna porque encerra:
O que se renova na clara manhã
Que nos espera.
6
Que são esses nomes
Todos os nomes
Deságüe de miragens e mais miragens
Que na pressa das cidades
Atira-nos
Ao mar.
Que são essas paisagens
Todas as paisagens
Deságüe de homens e mais homens
Que na ausência
De outros nomes
Afogam-se no mar.
Que são essas verdades
Todas as verdades
Deságüe de saudades e mais saudades
Que na miséria
Das vaidades
Força-nos a marejar.
7
Traçado à linha
Na corda, na borda,
No convés da memória
Meu verso marujo,
Náufrago do absurdo
Penetra no mar.
Mas o mar é saudade;
Saudade de cais,
Chuvas de sal,
Lamentos e ais.
Intruso na chuva que cessa
Meu verso regressa:
Marujo,
Saudoso de ar
Saudoso de mar.
8
Quando um rio sem leito
Corta outro rio seco,
Corta os pulsos-rios
Vazios dos homens-leito.
E nas margens-epidermes
Onde corriam rios artificiais,
Ardem sóis, líricos sóis,
De brilhos intestinais.
9 (poema techno) ler em 182bpm.
Parcos
Frutos
Pouco
Fartos
Rostos
Fotos
Fatos
Tortos
Porcos
Furtos
Surtos
Soltos
Santos
Solos
So los
Muertos
Secos
Sonhos
Cegos
Focos...
10
Palavras:
Lavras
Vãs
Sementes:
Sêmem
E
Mentes.
Em proporções
Porções de palavras
São sães
E quando sanidade nos
Falta
Voltam
As palavras-sães
Às
Sães palavras que
Nos faltam.
11
No meio da cidade, as cidades insights.
Entre noites artificiais,
Flores de ópio,
Mulheres,
Esquinas,
Saudades.
Há ruas de mãos duplas
Nas duplas mãos
De solidão
Nos muros
E portões das cidades.
Não há lugar para nós
Na opacidade
Destas ilusórias
Cidades insights.
12
Minha arte é o que invento
E não creio,
Mesmo quando me perco
No que faço.
É o passo que hesito
E acerto em cheio,
Onde me recomponho
E me desfaço.
13
...olhos silenciosos
Ciosos olhares
Maliciosos...
quinta-feira, 22 de maio de 2008
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4 comentários:
A melhor coisa que já li desde Augusto dos Anjos.
Será surpresa dizer que gostei muito dos teus poemas? Dá uma vontade doida de escrever...
O poema 7 é tão.... adorei!
Belo poema amigo...
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