EM BUSCA DA POESIA. Parte – I
Por Fabiano de Castro.
A pergunta pela poesia ultrapassa a simplicidade acolhedora das definições. No que se argüi, mascaram outras tantas indagações silenciadas, abafadas a ponto de mudar todos os rumos possíveis contidos na pergunta primeira: o que é poesia. O que ela é ou deva ser em nada apazigua a inquietação que surge na alma de quem se dedica à lida poética. Inquietação que não se faz privilégio dos poetas, mas também de quem se presta a leitura e a crítica literária. Seja como for, o que encontramos quando de nosso embate com poemas e outros textos literários são sempre perguntas que se somam as outras perguntas já pré-existentes. Com isso construímos uma imensa colcha de retalhos que aparentemente nunca terá fim. Sua tessitura, sua urdidura e seus modos de entrelaçamento justificam nossa sensação de eternos despreparados para o desafio de definir a poesia como definimos quase todas as nossas atividades humanas.
Mas, o que dizem os poemas? A quem dedicam suas palavras de pulsantes desvios? São os poemas fontes de alguma indagação que nos desarticulam de tal modo a não mais podermos dizer nada a seu respeito?
Longe de poder responder com alguma definição acolhedora, nos cabe tentar habita-los. E, do interior do seu universo, tecer considerações. Mas podemos antecipar que quaisquer afirmações que se façam previamente correm o risco de se dissipar no ato de contato com o poema. Isso se deve ao fato de ser o poema um híbrido (termo que será justificado mais tarde). Fazendo com que toda tentativa de fixação de um sentido prévio seja rechaçada ou tida como inautêntica. Eis aí a grande dificuldade encontrada por quem se dedica à tarefa de ou produzir ou habitar (pela crítica) os poemas. Transitar em um território onde cada passo dado soma-se aos outros passos anteriores sem, no entanto, apagá-los. E talvez por isso a crítica literária se faça tão necessária. Ou ainda, se faça necessária a contínua investida criativa realizada pelos poetas. Pois o ato de criação não inviabiliza os outros atos de conservação e manutenção, muito pelo contrário, os investem de uma dupla e honrosa tarefa, a saber: criando mundos, os poetas recriam o humano; recriando o humano, os poetas lançam-nos para um horizonte em constante expansão. Os poetas se esforçam na tentativa de viabilizar os estares-no-mundo. Não cabe a eles a tarefa de agirem pela via política ou ética, mas agem num nível que podemos por hora chamar ontológico. Assim como os filósofos da tradição, os poetas são “legisladores” de um mundo em desacordo com o cotidiano. Ambos prestam contas com o que há de mais importante para cada um de nós: a vida e suas justificativas.
Enquanto ‘legisladores’, os poetas se esforçam na tarefa de apresentar a legis que, por uma dessas curiosidades do destino, pode ser apreendida como ato de colher, recolher como também pode ser ler ou lei (1). A leitura do mundo, assim como o ato de colher nele os seus elementos formadores, faz do ato de criação um ato por excelência humanitário. Fica sempre margeado por uma dupla perspectiva fronteiriça, onde de um lado está o legado histórico-humanistíco e de outro as possibilidades de transcendência do mesmo. O ato criador promove uma abertura que se torna perceptível precocemente pela via estética. Mais do que simplesmente ‘lançar mundos no mundo’, o ato poético é re-formulador de mundos possíveis, sejam eles tecidos na vigília ou em nossos sonhos.
Se pensarmos o ato poético como um dos modos de ser do homem, iremos perceber as suas implicações ontológicas acima referidas. Somos demiurgos ora atentos aos nossos atos criadores ora desatentos. Pode-se especular inclusive a possibilidade de haver dois modos de apresentação dos atos de criação (lógico entre tantos outros possíveis), a saber: um modo tenso e outro distenso. Compreendendo o modo tenso como sendo aquele no qual nossas faculdades criadoras se encontram orientadas pela intenção e realizadas pela via da razoabilidade, um modo diurno. Modo este contraposto ao distenso, sendo este orientador das nossas necessidades mais recônditas, um modo de criação no qual nos fazemos no próprio ato de criar, um modo noturno.
Estes dois processos acima podem servir de metro para uma possível divisão entre a filosofia e a poesia. Uma vez que em ambos a presença de um ato criador se faz evidente. Somente percebemos de maneiras diferentes cada um dos processos de criação. Mas, não pensemos que se trata uma redução, pois ambos são percebidos como atos poéticos, apenas delegamos a um e a outro funções e usos diferentes. Funções que mais foram determinadas por uma tradição de lê-los de forma estanque que propriamente pré-determinadas por filósofos e poetas. Ou seja, fazemos dos textos filosóficos e poéticos um uso determinado, mas nada nos impede de transpor essa fronteira. E muitas vezes nos damos conta de estarmos diante se um texto consagrado pela tradição como filosófico, e ao olharmos para ele percebemos uma admirável poeticidade ali presente. Assim como diante de um texto poético descobrimos, às vezes surpresos que na verdade estamos lidando com um texto filosófico. Mas essa duplicidade em nada nos ajuda de fato a compreender a amplitude implícita na questão primeira: o que é poesia?
Propomos então um breve instante de divagação. O trecho seguinte é uma divagação entre a compreensão que temos de um ato banal alçado ao nível ontológico. Que sem ser propriamente filosófico, flerta com o poético em sua quase total inteireza.
Divagação nº. 01:
Caminhar se inscreve num campo semântico e sensorial que em muito ultrapassa as obviedades. Caminhar, vagar, ambular, deambular, percorrer, passar, passear, flanar... Caminhamos, percorremos espaços visíveis e invisíveis. Vagamos pelo conhecido e desconhecido. Nossos pés e pernas vasculham passo a passo o espaço com a mesma destreza que nossos olhos e nossa imaginação também o fazem. Caminhamos de olhos vedados nos espaços que nos são familiares, mas hesitamos a dar um passo em falso quando estamos em terras desconhecidas.
O caminhar assume uma dimensão cultural assim como a obsessão pelo eterno, pelo uno. No êxodo hebraico do Egito, caminhar significou a condição de retorno à liberdade à terra prometida. Mas também significou punição. Míticos e até místicos são os motivos de algumas caminhadas. Muitos se embrenharam pelas florestas tropicais e ali se perderam quando esperavam encontrar o tão procurado Eldorado. Buscas pessoais, esotéricas ou exotéricas, levam, ainda hoje, muitos aos Caminhos de Santiago da Compostela, em Espanha. O Homem já caminhou na Lua, no espaço infinito imaginado ou concreto.
Caminhar nos define como eternos buscadores. O deslocar-se das massas humanas construiu e desfez impérios. Motivados pela fé em Deus ou no Capital, os europeus do século XV e XVI percorreram os mares desafiando o imaginário medieval que traziam como legado até as terras do Novo Mundo. Sísifo, um semideus grego, tem como tarefa cumprir um eterno caminhar ladeira acima empurrando o peso de sua condição hybríaca para ver sua tarefa desfeita assim que a completa.
Caminhamos em vão, mas caminhamos. Caminhamos para a morte, como quer Heidegger. Mas caminhamos. Caminhar e devir são condições-irmães. Caminhamos com passos de gigantes quando somos movidos pelos afetos, o que dá ao nosso caminhar os ares poéticos que atribuímos aos deuses demiurgos.
O devir que nos caracteriza, nos inscreve numa ordem cosmológica onde somos muitas vezes co-partícipes dos atos de criação dos mundos por nós habitados. Aliás, o habitar é apenas uma etapa estanque entre as idas e vindas do nosso caminhar. Percorremos as páginas dos livros na esperança de que dali surja respostas sobre nós, sobre o nosso passado, presente e futuro. Incrustamos no tempo o nosso caminhar. Obcecados por este movimento em direção ao des-locamento, somos lançados no espaço das memórias para re-fazermos os caminhos já trilhados e esquecidos pelo tempo.
Somos seres que adotam a perspectiva do deslocamento como medida de nossa autoreferencialidade. Caminhando descobrimos pontos antes esparsos e difusos, fazendo as devidas contextualizações e ligações. Caminhar nos re-apresenta o mundo; uma operação mimética. Uma tarefa que envolve nossa capacidade de ficcionalizar o real. Uma tarefa que nos permite remodelar as premissas da realidade e as re-apresentar de uma outra forma. Em suma, caminhar é re-conhecer. E re-conhecer é um ato poético, onde somos desnudados, onde somos desarmados das armadilhas dos discursos cotidianos, onde somos, afinal, humanos.
Mas o caminhar se equaciona com o espacial. Pensar o espaço é pensarmos a partir de. É pensar onde. É pensar ‘locatoriamente’. Desmostando toda propensão ao Absoluto. Toda a obsessão pelo uno. Pensar o espaço é pensar o local em sua relação com o temporal. É pensar as verticalidades, ou ainda, nas verticalidades, ocupando postos e dali fazendo ecoar os rumos, os mapas dos caminhos percorridos.
Sem dúvida a tarefa de colocar na ordem do dia a questão do caminhar como uma dimensão essencial do devir humano é tarefa sinuosa e opaca. Mas pensando o caminhar como um modo do devir, nos coloca na ordem das metáforas e essas são tropos, desvios, mudanças de rumo, verdadeiras ‘pedras no caminho’ de toda ação linear.
quarta-feira, 21 de maio de 2008
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