A boca de Bento havia inchado de um modo descomunal nos últimos três dias. Era seu quarto dente podre em menos de um ano. Lembrou das palavras de todos os dentistas que conhecera ao longo da vida. Arreganhou a boca diante do espelho do banheiro e viu o fino rio de pus que escorria, minava de suas gengivas, agora um misto de carne viva e sangue apodrecido contido apenas pelo seu sorriso anêmico. Correu a casa em busca de um analgésico. Encontrou a garrafa de conhaque pela metade. Deixou pender a cabeça para trás e entornou o conhaque na boca. Há três dias só bebia. Lembrou das papinhas que ganhava quando criança, num momento em que a felicidade era ser banguela de nascença. Uma vez dentado, uma vez infeliz, pensou. A questão não era bem a dor que sentia. Era mais o constrangimento que o incomodava. A memória latejava mais que o dente estragado em sua boca. Desde a última vez que arrancara uma parte de si não conseguia mais arrancar da cabeça algumas memórias que não se lembrava mais se as tivera de fato vivido. O incomodo da incerteza é tanto pior que o de um dente minando pus em uma boca, pensou.
Uma em especial o incomodava mais. Estava sentado no colo de um homem idoso, talvez um seu avô, e este lhe dava cachaça em uma colher de sopa. Depois metia uma das mãos cheias de dedos retorcidos em sua boca e arrancava um dente que aparentemente não havia lhe causado dor alguma. A incerteza da dor. Um dente saudável. Tudo isso junto o deixava tonto, nauseado. Percebeu pela primeira vez a pequena célula de ruína que trazia consigo. Cada rua, cada casa, cada avenida; cada um dos transeuntes e moradores de suas lembranças era uma pequena célula de decadência e ruína.
A decadência habita a memória. A ruína habita o corpo. Mas é na lembrança que habita o mal-estar causado pela fusão das duas quimeras. O sabor da carne estragada aguçava seu paladar, mas inutilizava a sua vontade. A náusea causada pela lembrança de alguma lembrança passada dava lugar a um sentimento que parecia brotar da sua vontade mas que logo se mostrava tão incerto e impreciso que mais fácil seria aceitar que nada acontecia consigo. A não ser a velha dor da incerteza.
À tarde consentiu com a paisagem e resolveu iniciar o tratamento anódino em algum bar da cidade. Sentado em frente ao velho balcão de madeira, rodeado por algumas tulipas vazias, percebeu que sua língua estava dormente e que não conseguia mais sentir a própria boca. Nem os dentes sadios nem o dente podre. O interior de sua boca agora era uma zona morta. Ensaiou alguma reação, mas desistiu de chamar para si a atenção dos outros bêbados e pervertidos do local. Encheu a boca com um bocado de cerveja. Engoliu. Entendeu que não fora a sua boca que morrera, mas a lembrança que o perseguia há três dias é que havia sumido.
Lembrou então do dente saudável que lhe fora arrancado por engano quando criança. Chamou um dos moleques que estavam engraxando os sapatos dos clientes do bar e perguntou se ele não gostaria de ganhar algum dinheiro naquela tarde. Pediu uma garrafa de aguardente e dois copos ao balconista. Serviu uma rodada, serviu outra e mais outra e mais outra...Pediu para que o moleque abrisse bem a boca e pôs-se a olhar bem de perto os seus dentes. Todos estavam estragados e cobertos de uma camada espessa de uma massa amarela-esverdiada que fedia a dor. Os olhos radiantes do moleque destituídos de qualquer memória ou lembrança não eram capazes de transmitir nenhuma imprecisão. Ele havia sido envenenado pelo esquecimento. Havia engolido demais esta cidade para perceber. Toda poeira dos asfaltos quentes, toda indiferença e nulidade ofertada pelas ruas, vielas, casas e transeuntes da sua memória o haviam destituído de si.
Ao perceber que junto com a garrafa de aguardente havia esvaziado também sua cota de humanidade, agarrou o pescoço do moleque que nesta altura havia revelado sua idade e a culpa pelo seu dente podre e pela dor de todas as suas incertezas e acertou-o em cheio na boca. Um misto de sangue e dentes amarelo-esverdeados começou a ser regurgitado, enchendo a mesa do bar de cacos de tulipas e pedaços de vidros que pareciam brotar da boca inchada do moleque. Passou a língua mais uma vez pela boca e desta vez não encontrou mais o dente podre que o atormentava há três dias. Catou um dos dentes que estavam sobre a mesa, saiu do bar e atirou-o num dos vários bueiros entupidos da cidade. Podia seguir em paz, pelo menos até um outro dente começar a apodrecer em sua boca. Havia devolvido à cidade sua parte no jogo das incertezas.
terça-feira, 27 de maio de 2008
segunda-feira, 26 de maio de 2008
o inconstante.
O primeiro estampido soou abafado demais para surtir algum efeito. Apenas abri os olhos e sonolento continuei deitado sem me preocupar com o que poderia ter sido a causa daquele som. O segundo soou um pouco mais forte parecendo estourar em meus ouvidos. Estanquei. Permaneci com a cabeça presa ao travesseiro. Procurei não me misturar com os sons da noite, pois não havia muito a se saber. Não fora nada, apenas alguns estampidos surdos numa noite quente. Na manhã seguinte soube que os estampidos que não foram capazes de me tirar da cama, foram suficientes para mutilar as duas pernas de um crioulo que vivia nos arredores. Era um dos muitos moradores de rua que vieram morar próximo ao nosso bairro pequeno burguês, um dormitório da pequena e medíocre burguesia carioca. Mas como sempre se dá, não percebíamos muito bem o que estava acontecendo. Apenas havia notado que não podia mais sair às noites sem ser interpelado por algum transeunte sempre em busca de alguns trocados. Fora isso não havia nada de extraordinário acontecendo.
Os outros crioulos ficaram ressabiados. Passaram a andar em bandos na tentativa de preservar a segurança que pensavam ter. Afinal não tinham muitos motivos para temer os moradores do bairro. Fora alguns palavrões e desentendimentos corriqueiros, nada de drástico acontecia. Logo esqueceriam de tudo e voltariam às suas vidas ou ao que costumavam chamar de vida.
O calor perdurava e a noite parecia ganhar um peso insuportável. Não me lembro de ter ouvido barulho algum a noite, mas ao acordar soube que outro crioulo havia sido mutilado, desta vez foram os braços que haviam sido arrancados pelo impacto dos projéteis. Morreu antes de poder apontar o seu algoz. Gostei de pensar assim, apontar seu algoz, porra, o cara ficou sem os dois braços, piada. O pior é que não havia ninguém por perto para ouvi-la. Nunca fui muito bom com as piadas.
A campainha tocou e, como ainda estava sonolento, não sei se tocou uma, duas, três ou várias vezes. Do lado de fora deveria estar um homem armado com uma pistola e quando abrisse a porta ele apontaria aquela maravilha na minha cara. Finalmente iria ver a cena estúpida se passando como se esperasse um maldito salvador.
Estanquei olhando aquela figura de cócoras, arriado em minha porta sob um sol escaldante. Deus havia mandado um dos seus para me salvar. A merda era que não estava muito certo de estar de fato acordado. Talvez por isso ou sei lá porque apenas chutei o infeliz até que ele se enfurecesse e me amaldiçoasse. Lançou sonoras maldições. Algo como “seus dias serão difíceis de agora em diante, porque a fúria de nosso senhor irá se abater sobre vós”. Algo desse tipo. Não podia ouvi-lo direito, pois ainda achava que estava dormindo. E mesmo se o ouvisse o que isto poderia me dizer. Que me lembre nunca tive um maldito dia de paz nesta vida. “Fúria do senhor”. Que porcaria mais antiquada. Deveria tê-lo chutado mais.
Depois de arrumar a papelada do escritório lancei alguns dardos na parede em frente a minha sala. Era o costume. Depois de um ato idiota, faça algo de produtivo. Desconfiei daqueles dardos desde a primeira vez que os peguei em minhas mãos. Sempre errava a porra do alvo. Deviam estar viciados. Mas acho que só os dados é que ficam viciados. Deve ser por isso que deus não joga dado. Um drink antes do almoço cairia bem, pensei. Uma foda também. A diferença? Um drink sempre pede outro. A nova secretária não ia muito com a minha cara. Talvez pudesse convidá-la para tomar comigo depois do expediente. Preferi não arriscar, não dessa vez.
Lembrei da piada do dia anterior e comecei a achar que ela talvez não fosse tão ruim assim que não devesse contá-la a alguém.
Assim que amanheceu resolvi me deitar. Espreitei pela janela a noite toda na expectativa de ver alguém arrancar dessa vez a cabeça de algum vadio. Mas nada aconteceu. Nem estampidos nem nada. Apenas alguns moleques currando uma menininha loirinha que parecia estar gostando muito de ser currada por eles. Eram em quatro. Dois tomavam conta enquanto os outros dois metiam na menininha loirinha. Depois revezavam. Parecia uma reunião em família. Ou uma comunhão. Quando terminaram se cumprimentaram e saíram civilizadamente. Cada um foi em uma direção diferente. Mas a menininha loirinha permaneceu pela esquina por mais um tempo até que um carro encostou e a levou dali.
Aquele cara de novo. Agora com uma picareta na mão. Estou todo amarrado. Uma mordaça me impede de gritar. Ele ri enquanto bate a picareta próximo a minha cabeça. Parece estar tentando me dizer alguma coisa, mas as suas risadas não me deixam ouvir o que ele diz. Merda. Por que não consigo alcançar os meus bagos, eles estão gelados demais. Acho que vou tossir. Mais que merda, eu já tenho os meus próprios problemas e não preciso de mais outros. Agora eram os meus bagos que pareciam tentar alguma manobra desesperada. A picareta no chão. Pa..pa...pa...pa...pa..pa...aquele filho da puta sabia mesmo como me meter medo. Saí correndo assim que consegui alcançar os meus bagos. Corri pelas ruas do bairro de baixo. Esquinas e mais esquinas pareciam se amontoar sobre os meus pés. Pa...pa...pa...pa...pa...pa...
Alguém batia à minha porta. Corri os pés pela lateral da cama e percebi os meus chinelos. Calcei e fui me arrastando até a porta. Do outro lado já podia ver a menininha loirinha oferecendo-me doces que ela mesma havia feito na noite passada. Uma escocesinha com um saiote ínfimo tocando sua gaita de foles. Seu odor era de maçã e canela que pareciam ter sido colhidas ainda durante a noite. Meti a chave no buraco, girei o ferrolho e morri. Era assim a minha morte, pensei.
- O Sr. não apareceu hoje na firma, posso saber por quê ? - era a nova secretária lá da firma.
- Bem, ensaiei uma boa desculpa, estou com dor de barriga.- eu sou um fiasco, ela deve ter achado que não passo de um idiota. E com razão.
- Que tal se me deixasse entrar um pouco.
Eu continuo dormindo, pensei.
....pa...pa...pa...pa...pa...pa...pa....
Ainda batiam na porta da frente. Escancarei a porta. De cueca e de chinelos, parado em frente à porta escancarada, entendi o porquê dos bagos gelados: minha cueca estava rasgada. Entendi. O ventilador havia parado de girar bem na direção dos meus bagos.
Tinha um safado me vendendo produtos de beleza. E eu nu diante de um idiota que não me olhava nos olhos tentando me vender alguma merda de produto de beleza. Será que esse estúpido não sabe que a beleza está morta. Será que não desconfia que a beleza envelheceu e se acinzentou de tédio? Eu estava poético.
Dessa vez nada de pontapés. Entrei enquanto ele continuava falando das vantagens da morte... e comecei a atirar algumas garrafas vazias de vinho e cerveja na direção da sua cabeça. Estanquei. Era o magricela de óculos vendendo a palavra de seu salvador... filho da puta...era e não eram os mesmos. A cicatriz que começou a sangrar naquela noite estúpida e quente não iria me deixar ir a lugar algum até o dia em que finalmente me esvaziasse por completo.
No escritório o que mais me incomodava eram as pernas da nova secretária. Eram brancas. Compridas. Sempre a mostra. E de perto cheiravam a canela e maçã. Escocesinha de saiote curtíssimo. Porra...estava mesmo enlouquecendo.
..pa...pa...pa...
Os estampidos vieram da sala ao lado a minha. Acendi um cigarro na ponta do outro quase acabado e me levantei. Dessa vez estava de fato acordado. Não que tivesse certeza disso, mas não me lembro de alguma vez ter tido um sonho ou ouvido falar de alguém que tivesse sonhado com fumaça de cigarro.
Os outros crioulos ficaram ressabiados. Passaram a andar em bandos na tentativa de preservar a segurança que pensavam ter. Afinal não tinham muitos motivos para temer os moradores do bairro. Fora alguns palavrões e desentendimentos corriqueiros, nada de drástico acontecia. Logo esqueceriam de tudo e voltariam às suas vidas ou ao que costumavam chamar de vida.
O calor perdurava e a noite parecia ganhar um peso insuportável. Não me lembro de ter ouvido barulho algum a noite, mas ao acordar soube que outro crioulo havia sido mutilado, desta vez foram os braços que haviam sido arrancados pelo impacto dos projéteis. Morreu antes de poder apontar o seu algoz. Gostei de pensar assim, apontar seu algoz, porra, o cara ficou sem os dois braços, piada. O pior é que não havia ninguém por perto para ouvi-la. Nunca fui muito bom com as piadas.
A campainha tocou e, como ainda estava sonolento, não sei se tocou uma, duas, três ou várias vezes. Do lado de fora deveria estar um homem armado com uma pistola e quando abrisse a porta ele apontaria aquela maravilha na minha cara. Finalmente iria ver a cena estúpida se passando como se esperasse um maldito salvador.
Estanquei olhando aquela figura de cócoras, arriado em minha porta sob um sol escaldante. Deus havia mandado um dos seus para me salvar. A merda era que não estava muito certo de estar de fato acordado. Talvez por isso ou sei lá porque apenas chutei o infeliz até que ele se enfurecesse e me amaldiçoasse. Lançou sonoras maldições. Algo como “seus dias serão difíceis de agora em diante, porque a fúria de nosso senhor irá se abater sobre vós”. Algo desse tipo. Não podia ouvi-lo direito, pois ainda achava que estava dormindo. E mesmo se o ouvisse o que isto poderia me dizer. Que me lembre nunca tive um maldito dia de paz nesta vida. “Fúria do senhor”. Que porcaria mais antiquada. Deveria tê-lo chutado mais.
Depois de arrumar a papelada do escritório lancei alguns dardos na parede em frente a minha sala. Era o costume. Depois de um ato idiota, faça algo de produtivo. Desconfiei daqueles dardos desde a primeira vez que os peguei em minhas mãos. Sempre errava a porra do alvo. Deviam estar viciados. Mas acho que só os dados é que ficam viciados. Deve ser por isso que deus não joga dado. Um drink antes do almoço cairia bem, pensei. Uma foda também. A diferença? Um drink sempre pede outro. A nova secretária não ia muito com a minha cara. Talvez pudesse convidá-la para tomar comigo depois do expediente. Preferi não arriscar, não dessa vez.
Lembrei da piada do dia anterior e comecei a achar que ela talvez não fosse tão ruim assim que não devesse contá-la a alguém.
Assim que amanheceu resolvi me deitar. Espreitei pela janela a noite toda na expectativa de ver alguém arrancar dessa vez a cabeça de algum vadio. Mas nada aconteceu. Nem estampidos nem nada. Apenas alguns moleques currando uma menininha loirinha que parecia estar gostando muito de ser currada por eles. Eram em quatro. Dois tomavam conta enquanto os outros dois metiam na menininha loirinha. Depois revezavam. Parecia uma reunião em família. Ou uma comunhão. Quando terminaram se cumprimentaram e saíram civilizadamente. Cada um foi em uma direção diferente. Mas a menininha loirinha permaneceu pela esquina por mais um tempo até que um carro encostou e a levou dali.
Aquele cara de novo. Agora com uma picareta na mão. Estou todo amarrado. Uma mordaça me impede de gritar. Ele ri enquanto bate a picareta próximo a minha cabeça. Parece estar tentando me dizer alguma coisa, mas as suas risadas não me deixam ouvir o que ele diz. Merda. Por que não consigo alcançar os meus bagos, eles estão gelados demais. Acho que vou tossir. Mais que merda, eu já tenho os meus próprios problemas e não preciso de mais outros. Agora eram os meus bagos que pareciam tentar alguma manobra desesperada. A picareta no chão. Pa..pa...pa...pa...pa..pa...aquele filho da puta sabia mesmo como me meter medo. Saí correndo assim que consegui alcançar os meus bagos. Corri pelas ruas do bairro de baixo. Esquinas e mais esquinas pareciam se amontoar sobre os meus pés. Pa...pa...pa...pa...pa...pa...
Alguém batia à minha porta. Corri os pés pela lateral da cama e percebi os meus chinelos. Calcei e fui me arrastando até a porta. Do outro lado já podia ver a menininha loirinha oferecendo-me doces que ela mesma havia feito na noite passada. Uma escocesinha com um saiote ínfimo tocando sua gaita de foles. Seu odor era de maçã e canela que pareciam ter sido colhidas ainda durante a noite. Meti a chave no buraco, girei o ferrolho e morri. Era assim a minha morte, pensei.
- O Sr. não apareceu hoje na firma, posso saber por quê ? - era a nova secretária lá da firma.
- Bem, ensaiei uma boa desculpa, estou com dor de barriga.- eu sou um fiasco, ela deve ter achado que não passo de um idiota. E com razão.
- Que tal se me deixasse entrar um pouco.
Eu continuo dormindo, pensei.
....pa...pa...pa...pa...pa...pa...pa....
Ainda batiam na porta da frente. Escancarei a porta. De cueca e de chinelos, parado em frente à porta escancarada, entendi o porquê dos bagos gelados: minha cueca estava rasgada. Entendi. O ventilador havia parado de girar bem na direção dos meus bagos.
Tinha um safado me vendendo produtos de beleza. E eu nu diante de um idiota que não me olhava nos olhos tentando me vender alguma merda de produto de beleza. Será que esse estúpido não sabe que a beleza está morta. Será que não desconfia que a beleza envelheceu e se acinzentou de tédio? Eu estava poético.
Dessa vez nada de pontapés. Entrei enquanto ele continuava falando das vantagens da morte... e comecei a atirar algumas garrafas vazias de vinho e cerveja na direção da sua cabeça. Estanquei. Era o magricela de óculos vendendo a palavra de seu salvador... filho da puta...era e não eram os mesmos. A cicatriz que começou a sangrar naquela noite estúpida e quente não iria me deixar ir a lugar algum até o dia em que finalmente me esvaziasse por completo.
No escritório o que mais me incomodava eram as pernas da nova secretária. Eram brancas. Compridas. Sempre a mostra. E de perto cheiravam a canela e maçã. Escocesinha de saiote curtíssimo. Porra...estava mesmo enlouquecendo.
..pa...pa...pa...
Os estampidos vieram da sala ao lado a minha. Acendi um cigarro na ponta do outro quase acabado e me levantei. Dessa vez estava de fato acordado. Não que tivesse certeza disso, mas não me lembro de alguma vez ter tido um sonho ou ouvido falar de alguém que tivesse sonhado com fumaça de cigarro.
A descoberta.
O menino descobrira o mundo cavando pequenas trincheiras no quintal. Costumava cavar os buracos e se deitar para sentir a umidade da terra fresca recém remexida. Quando calhava de não chover por um longo tempo, franzino, o menino se contentava em fazer buracos menores. Enfiava seus pés nos buracos e cobria-os com terra: fingia de planta, árvore; seus pés, suas raízes.
O descontentamento de seus familiares se refletia nas imprecações de sua mãe e de sua avó.
- “Onde já se viu um menino ficar se enterrando e ainda achar graça nisso”; dizia sua mãe.
-“A terra é suja e você vai acabar ficando doente de tanto que se mete com essa sujeira toda”; ralhava sua avó.
Mas o frescor e o prazer que sentia no contato de seu corpo com a terra deixavam nele uma impressão de que havia naquela umidade um princípio de vida, um princípio de tudo. Mantinha com os outros uma reserva que não dispensava aos seres imaginados e criados por ele, todos cor de terra, todos com os odores da terra. Fazia seus bonecos de barro e soprava neles a alegria de se sentir íntimo deles. Afinal ele também cheirava à terra, suas roupas tinham as cores ocres da terra do quintal.
Nunca passara pela sua cabeça a possibilidade da terra ser um símbolo de saudade e perda. Para ele a terra era o símbolo da felicidade, por isso ou por outro motivo qualquer, não entendeu por que todos estavam tristes e chorando. Aquele lugar úmido, cheirando a terra molhada e ainda por cima repleta de flores e outras coisas com os odores de terra não podiam despertar nele outro sentimento que não o da alegria. Tratou de se sentar bem perto do buraco cavado, dessa vez por outras pessoas, e começou a cantarolar e a remexer com as mãos os montes de terra acumulados que estavam bem ao seu lado. Todos permaneceram em um profundo silêncio observando o menino. Aquele era seu momento de maior desprendimento e amor. Quando tudo terminou todos se despediram e voltaram para suas casas e para suas vidas. Nem notaram a pequena lágrima que corria da face suja de terra do menino. Naquele momento havia descoberto um novo sentido para os odores de terra e para as cores ocres de sua infância, agora a terra também guardava seu passado.
O descontentamento de seus familiares se refletia nas imprecações de sua mãe e de sua avó.
- “Onde já se viu um menino ficar se enterrando e ainda achar graça nisso”; dizia sua mãe.
-“A terra é suja e você vai acabar ficando doente de tanto que se mete com essa sujeira toda”; ralhava sua avó.
Mas o frescor e o prazer que sentia no contato de seu corpo com a terra deixavam nele uma impressão de que havia naquela umidade um princípio de vida, um princípio de tudo. Mantinha com os outros uma reserva que não dispensava aos seres imaginados e criados por ele, todos cor de terra, todos com os odores da terra. Fazia seus bonecos de barro e soprava neles a alegria de se sentir íntimo deles. Afinal ele também cheirava à terra, suas roupas tinham as cores ocres da terra do quintal.
Nunca passara pela sua cabeça a possibilidade da terra ser um símbolo de saudade e perda. Para ele a terra era o símbolo da felicidade, por isso ou por outro motivo qualquer, não entendeu por que todos estavam tristes e chorando. Aquele lugar úmido, cheirando a terra molhada e ainda por cima repleta de flores e outras coisas com os odores de terra não podiam despertar nele outro sentimento que não o da alegria. Tratou de se sentar bem perto do buraco cavado, dessa vez por outras pessoas, e começou a cantarolar e a remexer com as mãos os montes de terra acumulados que estavam bem ao seu lado. Todos permaneceram em um profundo silêncio observando o menino. Aquele era seu momento de maior desprendimento e amor. Quando tudo terminou todos se despediram e voltaram para suas casas e para suas vidas. Nem notaram a pequena lágrima que corria da face suja de terra do menino. Naquele momento havia descoberto um novo sentido para os odores de terra e para as cores ocres de sua infância, agora a terra também guardava seu passado.
quinta-feira, 22 de maio de 2008
Presente ausente
Por
Fabiano de Castro.
2008.
1
Ou há ininterrupto presente
Ou nenhum presente há.
Ou quiçá presente ausente
No presente que não há.
Ou quem sabe não há presente
Mas presentificar
Ou ainda sem ser presente
Um singelo adiar.
2
Dia virá
Sem ser quando,
Alegoricamente.
Virá,
Presente ausente:
Presentificadamente.
Virá, sem ter sido.
No inesperado:
Acintosamente.
Virá,
Como escrúpulo:
Crepuscularmente.
Virá,
Sem horizonte:
Vertiginosamente.
Virá,
Como rastro:
Silenciosamente.
3
Se penso, adio para além
Toda possibilidade de pensar.
Se sinto, entrego
Ao que em mim sente
Um sentido que não há.
Mas se digo a quem me espreita:
“Sinta!”
Que sinta para lá ou para cá:
Um remorso, uma culpa;
Uma desculpa
para se pensar.
4
“...Quelle parole a surgi pres de moi,
Quel cri se fait sur une bouche absente?...”
Yves Bonnefoy.
Entre o nome e o instante
Habita um querer.
Um silêncio abissal
De um absoluto
Prazer.
Quem saberá o que virá
E quem
Não quereria saber,
Mas abdicar
O instante é não
Se conter.
Saber o que virá
É saber
Na ignorância,
Não saber como
Será, é saber
Sem importância?
5
A vida pensa em mim um claro equilíbrio
De manhã raiada em leves toques de alecrim
Pesando sobre os lilases
Cercada de azuis dourados marfim
Uma explosiva beleza de haver sol
De haver luz
De haver fim.
A vida pesa em mim como um raro dia ansiado
Entre avencas papoulas
Turmalinas cristais jasmins
Feito palavra pronta contra
Desejada como úmida manhã anunciada
Pelo toque dos clarins.
A vida escapa em mim:
Feito luz entre as portas abertas
Brechas janelas fendas arestas
Esquinas ruas certas e desertas
Escapa como quem apenas erra
Repousando na leve manhã que se degreda
Por trás dos loucos verdes campos jardins.
Ocorre apenas à rubra tarde que impera
O saber-se eterna porque encerra:
O que se renova na clara manhã
Que nos espera.
6
Que são esses nomes
Todos os nomes
Deságüe de miragens e mais miragens
Que na pressa das cidades
Atira-nos
Ao mar.
Que são essas paisagens
Todas as paisagens
Deságüe de homens e mais homens
Que na ausência
De outros nomes
Afogam-se no mar.
Que são essas verdades
Todas as verdades
Deságüe de saudades e mais saudades
Que na miséria
Das vaidades
Força-nos a marejar.
7
Traçado à linha
Na corda, na borda,
No convés da memória
Meu verso marujo,
Náufrago do absurdo
Penetra no mar.
Mas o mar é saudade;
Saudade de cais,
Chuvas de sal,
Lamentos e ais.
Intruso na chuva que cessa
Meu verso regressa:
Marujo,
Saudoso de ar
Saudoso de mar.
8
Quando um rio sem leito
Corta outro rio seco,
Corta os pulsos-rios
Vazios dos homens-leito.
E nas margens-epidermes
Onde corriam rios artificiais,
Ardem sóis, líricos sóis,
De brilhos intestinais.
9 (poema techno) ler em 182bpm.
Parcos
Frutos
Pouco
Fartos
Rostos
Fotos
Fatos
Tortos
Porcos
Furtos
Surtos
Soltos
Santos
Solos
So los
Muertos
Secos
Sonhos
Cegos
Focos...
10
Palavras:
Lavras
Vãs
Sementes:
Sêmem
E
Mentes.
Em proporções
Porções de palavras
São sães
E quando sanidade nos
Falta
Voltam
As palavras-sães
Às
Sães palavras que
Nos faltam.
11
No meio da cidade, as cidades insights.
Entre noites artificiais,
Flores de ópio,
Mulheres,
Esquinas,
Saudades.
Há ruas de mãos duplas
Nas duplas mãos
De solidão
Nos muros
E portões das cidades.
Não há lugar para nós
Na opacidade
Destas ilusórias
Cidades insights.
12
Minha arte é o que invento
E não creio,
Mesmo quando me perco
No que faço.
É o passo que hesito
E acerto em cheio,
Onde me recomponho
E me desfaço.
13
...olhos silenciosos
Ciosos olhares
Maliciosos...
Por
Fabiano de Castro.
2008.
1
Ou há ininterrupto presente
Ou nenhum presente há.
Ou quiçá presente ausente
No presente que não há.
Ou quem sabe não há presente
Mas presentificar
Ou ainda sem ser presente
Um singelo adiar.
2
Dia virá
Sem ser quando,
Alegoricamente.
Virá,
Presente ausente:
Presentificadamente.
Virá, sem ter sido.
No inesperado:
Acintosamente.
Virá,
Como escrúpulo:
Crepuscularmente.
Virá,
Sem horizonte:
Vertiginosamente.
Virá,
Como rastro:
Silenciosamente.
3
Se penso, adio para além
Toda possibilidade de pensar.
Se sinto, entrego
Ao que em mim sente
Um sentido que não há.
Mas se digo a quem me espreita:
“Sinta!”
Que sinta para lá ou para cá:
Um remorso, uma culpa;
Uma desculpa
para se pensar.
4
“...Quelle parole a surgi pres de moi,
Quel cri se fait sur une bouche absente?...”
Yves Bonnefoy.
Entre o nome e o instante
Habita um querer.
Um silêncio abissal
De um absoluto
Prazer.
Quem saberá o que virá
E quem
Não quereria saber,
Mas abdicar
O instante é não
Se conter.
Saber o que virá
É saber
Na ignorância,
Não saber como
Será, é saber
Sem importância?
5
A vida pensa em mim um claro equilíbrio
De manhã raiada em leves toques de alecrim
Pesando sobre os lilases
Cercada de azuis dourados marfim
Uma explosiva beleza de haver sol
De haver luz
De haver fim.
A vida pesa em mim como um raro dia ansiado
Entre avencas papoulas
Turmalinas cristais jasmins
Feito palavra pronta contra
Desejada como úmida manhã anunciada
Pelo toque dos clarins.
A vida escapa em mim:
Feito luz entre as portas abertas
Brechas janelas fendas arestas
Esquinas ruas certas e desertas
Escapa como quem apenas erra
Repousando na leve manhã que se degreda
Por trás dos loucos verdes campos jardins.
Ocorre apenas à rubra tarde que impera
O saber-se eterna porque encerra:
O que se renova na clara manhã
Que nos espera.
6
Que são esses nomes
Todos os nomes
Deságüe de miragens e mais miragens
Que na pressa das cidades
Atira-nos
Ao mar.
Que são essas paisagens
Todas as paisagens
Deságüe de homens e mais homens
Que na ausência
De outros nomes
Afogam-se no mar.
Que são essas verdades
Todas as verdades
Deságüe de saudades e mais saudades
Que na miséria
Das vaidades
Força-nos a marejar.
7
Traçado à linha
Na corda, na borda,
No convés da memória
Meu verso marujo,
Náufrago do absurdo
Penetra no mar.
Mas o mar é saudade;
Saudade de cais,
Chuvas de sal,
Lamentos e ais.
Intruso na chuva que cessa
Meu verso regressa:
Marujo,
Saudoso de ar
Saudoso de mar.
8
Quando um rio sem leito
Corta outro rio seco,
Corta os pulsos-rios
Vazios dos homens-leito.
E nas margens-epidermes
Onde corriam rios artificiais,
Ardem sóis, líricos sóis,
De brilhos intestinais.
9 (poema techno) ler em 182bpm.
Parcos
Frutos
Pouco
Fartos
Rostos
Fotos
Fatos
Tortos
Porcos
Furtos
Surtos
Soltos
Santos
Solos
So los
Muertos
Secos
Sonhos
Cegos
Focos...
10
Palavras:
Lavras
Vãs
Sementes:
Sêmem
E
Mentes.
Em proporções
Porções de palavras
São sães
E quando sanidade nos
Falta
Voltam
As palavras-sães
Às
Sães palavras que
Nos faltam.
11
No meio da cidade, as cidades insights.
Entre noites artificiais,
Flores de ópio,
Mulheres,
Esquinas,
Saudades.
Há ruas de mãos duplas
Nas duplas mãos
De solidão
Nos muros
E portões das cidades.
Não há lugar para nós
Na opacidade
Destas ilusórias
Cidades insights.
12
Minha arte é o que invento
E não creio,
Mesmo quando me perco
No que faço.
É o passo que hesito
E acerto em cheio,
Onde me recomponho
E me desfaço.
13
...olhos silenciosos
Ciosos olhares
Maliciosos...
quarta-feira, 21 de maio de 2008
EM BUSCA DA POESIA. Parte – I
Por Fabiano de Castro.
A pergunta pela poesia ultrapassa a simplicidade acolhedora das definições. No que se argüi, mascaram outras tantas indagações silenciadas, abafadas a ponto de mudar todos os rumos possíveis contidos na pergunta primeira: o que é poesia. O que ela é ou deva ser em nada apazigua a inquietação que surge na alma de quem se dedica à lida poética. Inquietação que não se faz privilégio dos poetas, mas também de quem se presta a leitura e a crítica literária. Seja como for, o que encontramos quando de nosso embate com poemas e outros textos literários são sempre perguntas que se somam as outras perguntas já pré-existentes. Com isso construímos uma imensa colcha de retalhos que aparentemente nunca terá fim. Sua tessitura, sua urdidura e seus modos de entrelaçamento justificam nossa sensação de eternos despreparados para o desafio de definir a poesia como definimos quase todas as nossas atividades humanas.
Mas, o que dizem os poemas? A quem dedicam suas palavras de pulsantes desvios? São os poemas fontes de alguma indagação que nos desarticulam de tal modo a não mais podermos dizer nada a seu respeito?
Longe de poder responder com alguma definição acolhedora, nos cabe tentar habita-los. E, do interior do seu universo, tecer considerações. Mas podemos antecipar que quaisquer afirmações que se façam previamente correm o risco de se dissipar no ato de contato com o poema. Isso se deve ao fato de ser o poema um híbrido (termo que será justificado mais tarde). Fazendo com que toda tentativa de fixação de um sentido prévio seja rechaçada ou tida como inautêntica. Eis aí a grande dificuldade encontrada por quem se dedica à tarefa de ou produzir ou habitar (pela crítica) os poemas. Transitar em um território onde cada passo dado soma-se aos outros passos anteriores sem, no entanto, apagá-los. E talvez por isso a crítica literária se faça tão necessária. Ou ainda, se faça necessária a contínua investida criativa realizada pelos poetas. Pois o ato de criação não inviabiliza os outros atos de conservação e manutenção, muito pelo contrário, os investem de uma dupla e honrosa tarefa, a saber: criando mundos, os poetas recriam o humano; recriando o humano, os poetas lançam-nos para um horizonte em constante expansão. Os poetas se esforçam na tentativa de viabilizar os estares-no-mundo. Não cabe a eles a tarefa de agirem pela via política ou ética, mas agem num nível que podemos por hora chamar ontológico. Assim como os filósofos da tradição, os poetas são “legisladores” de um mundo em desacordo com o cotidiano. Ambos prestam contas com o que há de mais importante para cada um de nós: a vida e suas justificativas.
Enquanto ‘legisladores’, os poetas se esforçam na tarefa de apresentar a legis que, por uma dessas curiosidades do destino, pode ser apreendida como ato de colher, recolher como também pode ser ler ou lei (1). A leitura do mundo, assim como o ato de colher nele os seus elementos formadores, faz do ato de criação um ato por excelência humanitário. Fica sempre margeado por uma dupla perspectiva fronteiriça, onde de um lado está o legado histórico-humanistíco e de outro as possibilidades de transcendência do mesmo. O ato criador promove uma abertura que se torna perceptível precocemente pela via estética. Mais do que simplesmente ‘lançar mundos no mundo’, o ato poético é re-formulador de mundos possíveis, sejam eles tecidos na vigília ou em nossos sonhos.
Se pensarmos o ato poético como um dos modos de ser do homem, iremos perceber as suas implicações ontológicas acima referidas. Somos demiurgos ora atentos aos nossos atos criadores ora desatentos. Pode-se especular inclusive a possibilidade de haver dois modos de apresentação dos atos de criação (lógico entre tantos outros possíveis), a saber: um modo tenso e outro distenso. Compreendendo o modo tenso como sendo aquele no qual nossas faculdades criadoras se encontram orientadas pela intenção e realizadas pela via da razoabilidade, um modo diurno. Modo este contraposto ao distenso, sendo este orientador das nossas necessidades mais recônditas, um modo de criação no qual nos fazemos no próprio ato de criar, um modo noturno.
Estes dois processos acima podem servir de metro para uma possível divisão entre a filosofia e a poesia. Uma vez que em ambos a presença de um ato criador se faz evidente. Somente percebemos de maneiras diferentes cada um dos processos de criação. Mas, não pensemos que se trata uma redução, pois ambos são percebidos como atos poéticos, apenas delegamos a um e a outro funções e usos diferentes. Funções que mais foram determinadas por uma tradição de lê-los de forma estanque que propriamente pré-determinadas por filósofos e poetas. Ou seja, fazemos dos textos filosóficos e poéticos um uso determinado, mas nada nos impede de transpor essa fronteira. E muitas vezes nos damos conta de estarmos diante se um texto consagrado pela tradição como filosófico, e ao olharmos para ele percebemos uma admirável poeticidade ali presente. Assim como diante de um texto poético descobrimos, às vezes surpresos que na verdade estamos lidando com um texto filosófico. Mas essa duplicidade em nada nos ajuda de fato a compreender a amplitude implícita na questão primeira: o que é poesia?
Propomos então um breve instante de divagação. O trecho seguinte é uma divagação entre a compreensão que temos de um ato banal alçado ao nível ontológico. Que sem ser propriamente filosófico, flerta com o poético em sua quase total inteireza.
Divagação nº. 01:
Caminhar se inscreve num campo semântico e sensorial que em muito ultrapassa as obviedades. Caminhar, vagar, ambular, deambular, percorrer, passar, passear, flanar... Caminhamos, percorremos espaços visíveis e invisíveis. Vagamos pelo conhecido e desconhecido. Nossos pés e pernas vasculham passo a passo o espaço com a mesma destreza que nossos olhos e nossa imaginação também o fazem. Caminhamos de olhos vedados nos espaços que nos são familiares, mas hesitamos a dar um passo em falso quando estamos em terras desconhecidas.
O caminhar assume uma dimensão cultural assim como a obsessão pelo eterno, pelo uno. No êxodo hebraico do Egito, caminhar significou a condição de retorno à liberdade à terra prometida. Mas também significou punição. Míticos e até místicos são os motivos de algumas caminhadas. Muitos se embrenharam pelas florestas tropicais e ali se perderam quando esperavam encontrar o tão procurado Eldorado. Buscas pessoais, esotéricas ou exotéricas, levam, ainda hoje, muitos aos Caminhos de Santiago da Compostela, em Espanha. O Homem já caminhou na Lua, no espaço infinito imaginado ou concreto.
Caminhar nos define como eternos buscadores. O deslocar-se das massas humanas construiu e desfez impérios. Motivados pela fé em Deus ou no Capital, os europeus do século XV e XVI percorreram os mares desafiando o imaginário medieval que traziam como legado até as terras do Novo Mundo. Sísifo, um semideus grego, tem como tarefa cumprir um eterno caminhar ladeira acima empurrando o peso de sua condição hybríaca para ver sua tarefa desfeita assim que a completa.
Caminhamos em vão, mas caminhamos. Caminhamos para a morte, como quer Heidegger. Mas caminhamos. Caminhar e devir são condições-irmães. Caminhamos com passos de gigantes quando somos movidos pelos afetos, o que dá ao nosso caminhar os ares poéticos que atribuímos aos deuses demiurgos.
O devir que nos caracteriza, nos inscreve numa ordem cosmológica onde somos muitas vezes co-partícipes dos atos de criação dos mundos por nós habitados. Aliás, o habitar é apenas uma etapa estanque entre as idas e vindas do nosso caminhar. Percorremos as páginas dos livros na esperança de que dali surja respostas sobre nós, sobre o nosso passado, presente e futuro. Incrustamos no tempo o nosso caminhar. Obcecados por este movimento em direção ao des-locamento, somos lançados no espaço das memórias para re-fazermos os caminhos já trilhados e esquecidos pelo tempo.
Somos seres que adotam a perspectiva do deslocamento como medida de nossa autoreferencialidade. Caminhando descobrimos pontos antes esparsos e difusos, fazendo as devidas contextualizações e ligações. Caminhar nos re-apresenta o mundo; uma operação mimética. Uma tarefa que envolve nossa capacidade de ficcionalizar o real. Uma tarefa que nos permite remodelar as premissas da realidade e as re-apresentar de uma outra forma. Em suma, caminhar é re-conhecer. E re-conhecer é um ato poético, onde somos desnudados, onde somos desarmados das armadilhas dos discursos cotidianos, onde somos, afinal, humanos.
Mas o caminhar se equaciona com o espacial. Pensar o espaço é pensarmos a partir de. É pensar onde. É pensar ‘locatoriamente’. Desmostando toda propensão ao Absoluto. Toda a obsessão pelo uno. Pensar o espaço é pensar o local em sua relação com o temporal. É pensar as verticalidades, ou ainda, nas verticalidades, ocupando postos e dali fazendo ecoar os rumos, os mapas dos caminhos percorridos.
Sem dúvida a tarefa de colocar na ordem do dia a questão do caminhar como uma dimensão essencial do devir humano é tarefa sinuosa e opaca. Mas pensando o caminhar como um modo do devir, nos coloca na ordem das metáforas e essas são tropos, desvios, mudanças de rumo, verdadeiras ‘pedras no caminho’ de toda ação linear.
Por Fabiano de Castro.
A pergunta pela poesia ultrapassa a simplicidade acolhedora das definições. No que se argüi, mascaram outras tantas indagações silenciadas, abafadas a ponto de mudar todos os rumos possíveis contidos na pergunta primeira: o que é poesia. O que ela é ou deva ser em nada apazigua a inquietação que surge na alma de quem se dedica à lida poética. Inquietação que não se faz privilégio dos poetas, mas também de quem se presta a leitura e a crítica literária. Seja como for, o que encontramos quando de nosso embate com poemas e outros textos literários são sempre perguntas que se somam as outras perguntas já pré-existentes. Com isso construímos uma imensa colcha de retalhos que aparentemente nunca terá fim. Sua tessitura, sua urdidura e seus modos de entrelaçamento justificam nossa sensação de eternos despreparados para o desafio de definir a poesia como definimos quase todas as nossas atividades humanas.
Mas, o que dizem os poemas? A quem dedicam suas palavras de pulsantes desvios? São os poemas fontes de alguma indagação que nos desarticulam de tal modo a não mais podermos dizer nada a seu respeito?
Longe de poder responder com alguma definição acolhedora, nos cabe tentar habita-los. E, do interior do seu universo, tecer considerações. Mas podemos antecipar que quaisquer afirmações que se façam previamente correm o risco de se dissipar no ato de contato com o poema. Isso se deve ao fato de ser o poema um híbrido (termo que será justificado mais tarde). Fazendo com que toda tentativa de fixação de um sentido prévio seja rechaçada ou tida como inautêntica. Eis aí a grande dificuldade encontrada por quem se dedica à tarefa de ou produzir ou habitar (pela crítica) os poemas. Transitar em um território onde cada passo dado soma-se aos outros passos anteriores sem, no entanto, apagá-los. E talvez por isso a crítica literária se faça tão necessária. Ou ainda, se faça necessária a contínua investida criativa realizada pelos poetas. Pois o ato de criação não inviabiliza os outros atos de conservação e manutenção, muito pelo contrário, os investem de uma dupla e honrosa tarefa, a saber: criando mundos, os poetas recriam o humano; recriando o humano, os poetas lançam-nos para um horizonte em constante expansão. Os poetas se esforçam na tentativa de viabilizar os estares-no-mundo. Não cabe a eles a tarefa de agirem pela via política ou ética, mas agem num nível que podemos por hora chamar ontológico. Assim como os filósofos da tradição, os poetas são “legisladores” de um mundo em desacordo com o cotidiano. Ambos prestam contas com o que há de mais importante para cada um de nós: a vida e suas justificativas.
Enquanto ‘legisladores’, os poetas se esforçam na tarefa de apresentar a legis que, por uma dessas curiosidades do destino, pode ser apreendida como ato de colher, recolher como também pode ser ler ou lei (1). A leitura do mundo, assim como o ato de colher nele os seus elementos formadores, faz do ato de criação um ato por excelência humanitário. Fica sempre margeado por uma dupla perspectiva fronteiriça, onde de um lado está o legado histórico-humanistíco e de outro as possibilidades de transcendência do mesmo. O ato criador promove uma abertura que se torna perceptível precocemente pela via estética. Mais do que simplesmente ‘lançar mundos no mundo’, o ato poético é re-formulador de mundos possíveis, sejam eles tecidos na vigília ou em nossos sonhos.
Se pensarmos o ato poético como um dos modos de ser do homem, iremos perceber as suas implicações ontológicas acima referidas. Somos demiurgos ora atentos aos nossos atos criadores ora desatentos. Pode-se especular inclusive a possibilidade de haver dois modos de apresentação dos atos de criação (lógico entre tantos outros possíveis), a saber: um modo tenso e outro distenso. Compreendendo o modo tenso como sendo aquele no qual nossas faculdades criadoras se encontram orientadas pela intenção e realizadas pela via da razoabilidade, um modo diurno. Modo este contraposto ao distenso, sendo este orientador das nossas necessidades mais recônditas, um modo de criação no qual nos fazemos no próprio ato de criar, um modo noturno.
Estes dois processos acima podem servir de metro para uma possível divisão entre a filosofia e a poesia. Uma vez que em ambos a presença de um ato criador se faz evidente. Somente percebemos de maneiras diferentes cada um dos processos de criação. Mas, não pensemos que se trata uma redução, pois ambos são percebidos como atos poéticos, apenas delegamos a um e a outro funções e usos diferentes. Funções que mais foram determinadas por uma tradição de lê-los de forma estanque que propriamente pré-determinadas por filósofos e poetas. Ou seja, fazemos dos textos filosóficos e poéticos um uso determinado, mas nada nos impede de transpor essa fronteira. E muitas vezes nos damos conta de estarmos diante se um texto consagrado pela tradição como filosófico, e ao olharmos para ele percebemos uma admirável poeticidade ali presente. Assim como diante de um texto poético descobrimos, às vezes surpresos que na verdade estamos lidando com um texto filosófico. Mas essa duplicidade em nada nos ajuda de fato a compreender a amplitude implícita na questão primeira: o que é poesia?
Propomos então um breve instante de divagação. O trecho seguinte é uma divagação entre a compreensão que temos de um ato banal alçado ao nível ontológico. Que sem ser propriamente filosófico, flerta com o poético em sua quase total inteireza.
Divagação nº. 01:
Caminhar se inscreve num campo semântico e sensorial que em muito ultrapassa as obviedades. Caminhar, vagar, ambular, deambular, percorrer, passar, passear, flanar... Caminhamos, percorremos espaços visíveis e invisíveis. Vagamos pelo conhecido e desconhecido. Nossos pés e pernas vasculham passo a passo o espaço com a mesma destreza que nossos olhos e nossa imaginação também o fazem. Caminhamos de olhos vedados nos espaços que nos são familiares, mas hesitamos a dar um passo em falso quando estamos em terras desconhecidas.
O caminhar assume uma dimensão cultural assim como a obsessão pelo eterno, pelo uno. No êxodo hebraico do Egito, caminhar significou a condição de retorno à liberdade à terra prometida. Mas também significou punição. Míticos e até místicos são os motivos de algumas caminhadas. Muitos se embrenharam pelas florestas tropicais e ali se perderam quando esperavam encontrar o tão procurado Eldorado. Buscas pessoais, esotéricas ou exotéricas, levam, ainda hoje, muitos aos Caminhos de Santiago da Compostela, em Espanha. O Homem já caminhou na Lua, no espaço infinito imaginado ou concreto.
Caminhar nos define como eternos buscadores. O deslocar-se das massas humanas construiu e desfez impérios. Motivados pela fé em Deus ou no Capital, os europeus do século XV e XVI percorreram os mares desafiando o imaginário medieval que traziam como legado até as terras do Novo Mundo. Sísifo, um semideus grego, tem como tarefa cumprir um eterno caminhar ladeira acima empurrando o peso de sua condição hybríaca para ver sua tarefa desfeita assim que a completa.
Caminhamos em vão, mas caminhamos. Caminhamos para a morte, como quer Heidegger. Mas caminhamos. Caminhar e devir são condições-irmães. Caminhamos com passos de gigantes quando somos movidos pelos afetos, o que dá ao nosso caminhar os ares poéticos que atribuímos aos deuses demiurgos.
O devir que nos caracteriza, nos inscreve numa ordem cosmológica onde somos muitas vezes co-partícipes dos atos de criação dos mundos por nós habitados. Aliás, o habitar é apenas uma etapa estanque entre as idas e vindas do nosso caminhar. Percorremos as páginas dos livros na esperança de que dali surja respostas sobre nós, sobre o nosso passado, presente e futuro. Incrustamos no tempo o nosso caminhar. Obcecados por este movimento em direção ao des-locamento, somos lançados no espaço das memórias para re-fazermos os caminhos já trilhados e esquecidos pelo tempo.
Somos seres que adotam a perspectiva do deslocamento como medida de nossa autoreferencialidade. Caminhando descobrimos pontos antes esparsos e difusos, fazendo as devidas contextualizações e ligações. Caminhar nos re-apresenta o mundo; uma operação mimética. Uma tarefa que envolve nossa capacidade de ficcionalizar o real. Uma tarefa que nos permite remodelar as premissas da realidade e as re-apresentar de uma outra forma. Em suma, caminhar é re-conhecer. E re-conhecer é um ato poético, onde somos desnudados, onde somos desarmados das armadilhas dos discursos cotidianos, onde somos, afinal, humanos.
Mas o caminhar se equaciona com o espacial. Pensar o espaço é pensarmos a partir de. É pensar onde. É pensar ‘locatoriamente’. Desmostando toda propensão ao Absoluto. Toda a obsessão pelo uno. Pensar o espaço é pensar o local em sua relação com o temporal. É pensar as verticalidades, ou ainda, nas verticalidades, ocupando postos e dali fazendo ecoar os rumos, os mapas dos caminhos percorridos.
Sem dúvida a tarefa de colocar na ordem do dia a questão do caminhar como uma dimensão essencial do devir humano é tarefa sinuosa e opaca. Mas pensando o caminhar como um modo do devir, nos coloca na ordem das metáforas e essas são tropos, desvios, mudanças de rumo, verdadeiras ‘pedras no caminho’ de toda ação linear.
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